terça-feira, 5 de setembro de 2017

"A POLÍTICA OFICIAL PARA A LITERATURA É MERCANTILISTA E CORPORATIVA" - Entreolhos com Cláudia Brino

Escritora e editora independente, Cláudia Brino (foto ao lado) faz um trabalho de muitas descobertas através de sua Editora Costelas Felinas, que já editou muitos milhares de títulos entre prosa e verso, de autores de todo o Brasil. Seu trabalho artesanal é de um capricho e uma correção impecáveis, que a fazem acumular clientes, amigos e admiradores. Ela ama o que faz. Isso é notório em suas postagens em rede social e na frequência com que lança movimentos como concursos literários, nos quais oferece edições como prêmios. Cláudia Brino é a nossa entreolhada nesta edição.

E – Cláudia Brino; centenas, talvez milhares de pessoas que não o fariam de outra forma vêm realizando o sonho de tirar das gavetas os seus escritos e transformá-los em livros impressos. Tudo graças à chance que você oferece, da publicação de quantos exemplares o autor quiser. Pode usar licença poética para responder, caso queira: o que isso significa para você?

R: Rapaz é uma emoção inestimável, principalmente quando podemos ver a reação de alguns autores recebendo o livro modelo. Tendo em mãos, pela primeira vez na vida, algo seu impresso e em formato de livro. Nestes dias uma amiga e também escritora, Vera Tezza, disse para nós, em rede social, e faço dela nossas palavras: Realizar sonhos é eternizar-se.

E – Você tem o registro de quantas pessoas já editaram livros pela sua Editora Costelas Felinas, e de quantos foram ao todo, os exemplares impressos?

R: Até agora editamos 329 títulos, entre livros solos e antologias, num total de 20.600 exemplares. Já há alguns anos estamos editando e lançando um livro novo por semana, a maioria em cidades que não contam nem com livrarias.

E – O que é a Editora Costelas Felinas? E qual é a filosofia da editora, visto que não se trata de uma atividade econômica, neste caso, das mais rentáveis? Ou estamos enganados?

R: A Costelas Felinas é uma editora totalmente artesanal e informal. Não somos empresa e nossa filosofia é servir de plataforma intermediária para aqueles que se movimentam neste imenso universo literário independente. Qualquer pessoa pode enviar sua obra por e-mail e receber em casa um livro gratuito para análise e correção. A partir daí pede somente o que necessitar de cada vez.

E – Vocês contam (não precisam dizer de que forma) com alguma facilidade de aquisição de papel, tinta, patrocínio etc.? Em que condições é feito esse trabalho? Não há nenhum problema se você disser nome de patrocinador.

R: Não temos nenhum tipo de facilidade. Tinta, papel e os outros itens de encadernação são comprados no varejo. O trabalho é todo feito à mão e utilizamos impressora doméstica, bom-humor e criatividade.

E – Mesmo oferecendo uma oportunidade como essa a tantos talentos da literatura, você enfrenta casos de intolerância quando algo não ocorre exatamente como o esperado? Em casos de prazo, por exemplo, entre outros itens?

R: O caso mais intolerante que apareceu foi o de uma pessoa que organizava antologias e queria a todo custo passar a frente de nossa fila de trabalho. Foi um bom período de discussão até a pessoa entender que para nós o que é válido é o respeito e que todos deveriam aguardar sua vez, não importando quem seja. Perdemos um cliente? Sim... rsss mas, ganhamos tranquilidade. Agora, em caso de prazo, o assunto chega a ser engraçado, porque tem gente que primeiro marca a data do lançamento, para depois mandar o trabalho para editarmos.

E – Uma curiosidade: você edita mais trabalhos de escritoras, escritores, ou essa ordem é variável?

R: Em nossa estante felina há um empate: as mulheres estão ganhando na prateleira da poesia e os homens na prateleira da prosa, isso em livro solo. Em organização de antologias, as mulheres estão na frente, bem na frente...

E – Fale um pouco de seus concursos: como funcionam? Quais são os critérios de avaliação, e quem são geralmente os avaliadores?

R: Os concursos são realizados de duas maneiras: pela própria Costelas Felinas (Prêmio Miau, Baseado na Estrada - 50 anos do Movimento Hippie, Cardápio Poético, Prêmio Narciso de Andrade, entre outros) e os que ocorrem em parceria com o Clube de Poetas do Litoral (CPL), do qual sou fundadora e coordenadora (Trajes Poéticos, CinePoesia, Desafio Literário...)
Os jurados da Costelas Felinas, são professores de literatura. Os jurados do Clube de Poetas do Litoral são os próprios integrantes do grupo.

E – Os concursos são patrocinados ou vocês bancam tudo? Mais uma vez não tem problema se você disser nome de patrocinador.

R: Todos os nossos concursos e eventos são bancados pelo nosso idealismo.

E – Defina para nós o apoio da iniciativa privada, do poder público e outras fontes, a trabalhos como o seu, e no seu caso, especificamente.

R: Olha, nós, especificamente, trabalhamos para provar que se pode fazer um trabalho literário totalmente independente e liberto da dicotomia poder público-iniciativa privada. O nosso trabalho é totalmente underground, ou seja, nos movimentamos à margem do Grande Mercado, portanto, todos os custos são bancados com recursos próprios, pois é, justamente, esta a nossa proposta: como movimentar o nome de forma alternativa, sem incentivo algum, longe dos guetos elitistas e da massificação segmentada.
 
E – Como você vê nos dias atuais, a política geral de incentivos oficiais à literatura? Você consegue notar essa política?

R: Toda política oficial para a literatura é somente mercantilista e corporativa. Não temos atividade empresarial e não atuamos em gabinetes, portanto, o que vemos é passarem os anos e a luta continuar a mesma.

E – Isso já não ocorre ou você continua se surpreendendo com talentos que descobre a cada “fornada” literária?

R: Nosso campo de ação é muito amplo, por isso nos oferece um leque abrangente da literatura contemporânea e a cada “fornada” a surpresa se renova.

E – O que é para você a literatura? O que ela representa em sua vida?

R As duas perguntas tem a mesma resposta: prazer.

E – Voltando aos concursos literários: o nome do concurso deste ano tem a ver com o gato preto ou a gata que vemos em suas postagens? É uma homenagem a ela? Fale a respeito.

R: Rsssss.... não diria que foi em homenagem, na verdade foi um estalo que deu na ideia, mas como a gatinha Noia passa muito tempo com a gente entre os livros, isso deve ter nos influenciado de alguma maneira.

E – Tem em mente o número de concorrentes? E qual foi a modalidade mais inscrita? Prosa ou verso?

R: Ainda não tivemos tempo para contar, mas acreditamos ter um pouco mais de 300 participantes. Até agora entregamos mais de 160 livros e a maioria inscrita foi POESIA.

E – Considerando sua lida diária com talentos da literatura, você diria que o Brasil está melhor, pior ou como sempre, no que tange o fazer literário tanto em qualidade quanto em quantidade? Por quê?

R: Nos últimos anos o mercado editorial cresceu muito com a chegada de grandes editoras estrangeiras monopolizando segmentos literários e isso contribuiu para a expansão do abismo entre os escritores regionais e as editoras nos grandes centros. A produção alternativa continua em alta, mas sufocada e restrita a eventos literários independentes.

E – Se puder e quiser, narre alguma curiosidade – ou mais de uma – que tenha marcado sua trajetória como editora.

R: O que marca a gente e sempre marcará nesta trajetória é a amizade que fazemos com os autores e a possibilidade de poder conhecer tantas ideias e ajudar a deixar isso registrado. Em segundo plano ficam os prêmios e menções honrosas que alguns livros editados pela Costelas Felinas receberam e também a edição de livros publicados para o exterior.

E – Sabe-se que você é também autora, e das boas. De prosa e verso. Qual é a sua modalidade literária preferida, como escritora? E por quê?

R: Minha modalidade é poesia. Por quê? Ela colou em mim.

E – Quantos livros seus, você já editou? Se puder enumere-os e classifique.

R: 16 livros solos. Poesia: Zona 2000, Mosaico da Insônia (livro em 7 volumes), Safra Velha (indicado ao Prêmio Nobel de Literatura/2018 pelo jornal Interna-tional Poetry News, da Itália), Momentos, Palavra, Chorando Reticências, Vozes, Almas com Fome, Pérola Verde, Objetos, Versos e Encaixe (estes três últimos em parceria com Vieira Vivo). Prosa: O lado Vertical da Cruz, Frags vol. 1 e 2, Fronteira, Amor Mofado.

E – Poetize com palavras, o prazer que você tem em dar notoriedade a tantos talentos.

R: Na verdade as letras dão destaque a todos que por elas são cativados e as afagam com vivência e sabedoria, porque somente através da palavra podemos deixar registrado que um dia passamos por aqui.

E – Deixamos de perguntar algo sobre o que você gostaria de falar? Fique à vontade.

R: Nenhuma. Tudo ótimo, tudo pertinente.

E – Dê os seus endereços comerciais e fale sobre como contatá-la e contratá-la para edições de livros.

R: Nossos contatos são: e-mail: cacbvv@gmail.com / celular: (13) 98139-1967. Como enviar a obra? Está explicado em nosso blog: http://artesanallivro.blogspot.com.br .

E – Deixe alguma mensagem, a seu critério, para os nossos leitores, os autores de sua editora e os concorrentes do prêmio Miau.

R: Como já disse Vítor Ramil: não estamos à margem, estamos no centro de uma outra margem.

E – Muito obrigados. Foi uma honra imensa entreolhá-la.


R: Cá adoramos por demais este convite. Só temos a agradecer por nos permitir fazer parte da ENTREOLHOS (outro ótimo meio de difusão cultural) e agradecer ao amigo e autor Demétrio Sena por nos apresentar a si.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

TELMA TAUREPANG E O RESGATE DO BRASIL INDÍGENA

O Entreolhos desta edição não foi feito por nós. É a íntegra de uma entrevista que nos tocou, concedida pela líder indígena Telma Taurepang (foto à esquerda) ao jornalista Eduardo Waack para o site jornaloboemio.wordpress. Sem mais delongas, passemos à entrevista que dispensa maiores comentários de nossa parte. As fotos também são do Boêmio.

Autor: Eduardo Waack

Telma  fala sobre direitos indígenas durante evento paralelo da Conferência do Clima 
Ela é uma das grandes lideranças indígenas do Brasil atual. Sempre atenta, pessoa culta e engajada, enxerga além das aparências, e inclui a todos em seus ideais. Nesta entrevista, Telma Taurepang discute questões envolvendo os povos originários do Brasil, entre elas a situação e necessidades das mulheres indígenas, territorialidade, conquistas, câmbio climático e outras urgências. Vamos conhecê-la melhor.

Apresentação. Fale-nos um pouco sobre você.

Telma — O nome que me foi dado pelo branco é Telma Marques da Silva. Nome Taurepang: Paata Maimu, que significa A Voz da Terra. Sou do povo Taurepang, que está concentrado no município de Pacaraima, e em Terras Indígenas no estado de Roraima e na Venezuela, na fronteira Brasil-Venezuela. Sou da Região do Amajari, da comunidade indígena Araçá, minhas raízes, mas minha residência hoje é na comunidade indígena Mangueira. Tenho três filhos, dois curumins e uma cunhatãn, sou vovó de um casal de netinhos, nasci e cresci no movimento indígena, venho de uma linhagem de lideranças Taurepang. Desde 2005 atuo na Frente de Organização Indígena. É a primeira vez que uma mulher Taurepang assume uma organização indígena; em 2010 fui eleita com 3.540 votos para assumir a Secretaria de Mulheres Indígenas, um departamento dentro de uma organização de renome no estado de Roraima, respeitada internacionalmente pela atuação em defesa dos direitos dos povos originários no estado, com a conquista da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Esta organização chama-se Conselho Indígena de Roraima — CIR. Ali permaneci seis anos atuando como secretária geral do Movimento das Mulheres Indígenas. Meu mandato durou do dia 15/03/2010 a 15/03/2017. Em 29/11/2016 fui eleita por aclamação e indicação de nove estados da Amazônia, entre eles Mato Grosso e Maranhão, que integram nossa organização, chamada União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira — UMIAB; meu mandato é de quatro anos, e no dia 22/07/2017 assumi mais uma missão.

Atuando dentro e fora do Brasil.

Telma — Faço parte do conselho de mulheres da COICA (Coordinadora de la Organizaciones Indígenas de la Cuenca Amazónica), onde foi constituída uma Secretaria de Mulheres Indígenas da América Latina, que atua em nível internacional, um conselho consultivo e deliberativo, onde estamos participando como membro desse conselho, como parte do Brasil. Aqui no Brasil também existe um comitê que discute questão de mudanças climáticas chamado Comitê Indígena de Mudanças Climáticas — CIMC. Ali fazemos parte na representação na questão de gênero, e participamos de grandes conferências fora do país. Hoje a minha participação tanto em nível nacional como internacional está na defesa dos direitos dos povos indígenas, em defesa das mulheres indígenas. Tenho participado de colóquios, congressos e debates fora do Brasil, na ONU em Genebra, e nos espaços que nos chamam para denunciar violações de direitos dos povos indígenas e questões de gênero. Estamos unidos. Faço parte também de um projeto dentro da ONU que se chama A Voz das Mulheres Indígenas, somos referência dentro do nosso Estado e hoje fora também. Este projeto surgiu devido ao aumento de violência contra as mulheres indígenas, então fazemos uma discussão para empoderar as mulheres indígenas em direitos e políticas públicas, desenvolvimento sustentável e cultural. Pra mim não é um fardo o que faço, é sim um legado que as guerreiras que me antecederam deixaram, um legado vital, e incorporei essa luta com muita coragem.

Vivendo entre duas culturas.

Telma — É achar meios para uma sintonia sem atrito. É viver e manter nossos costumes, desde nossos antepassados, pois a cultura civilizada vive em mutação constante.

Em Brasília, no Acampamento Terra Livre
Como é ser índio no Brasil?

Telma — É viver às margens da Lei e em conflitos constantes pela posse de terras, terras que por direito são nossas, desde antes desta (tal) descoberta. Por onde quer que estejamos levaremos a luta daqueles que nos antecederam.

Quais os grandes desafios atuais para os povos indígenas?

Telma — Liberdade para eleger nossos representantes no que tange aos órgãos que defendem os povos indígenas, em todas suas amplitudes. Discutir terras indígenas. Acabar com os conflitos agrários. Titulação de terras aos indígenas que delas vivem, assim será dado o primeiro passo para acabar com os assassinatos por demanda de terras.

Fale sobre o recente Congresso Geral da Mulher Indígena, no Peru.

Telma — O empoderamento das mulheres indígenas está nessa discussão, e bem visível a todos, como nós queremos que seja, encaminhando nossas demandas. Nós queremos sim demandas de forma que sejam adequadas, e como serão de fato atendidas nossas bases por nós na governança de nossos territórios, com os projetos; pra nós a discussão sobre a questão de gênero não é uma disputa entre homem e mulher e sim que haja uma cumplicidade entre os parceiros de luta, mulheres e homens dentro de suas organizações trabalhando em parceria. Pra nós mulheres indígenas, foi um avanço muito grande nesse Congresso ter de fato uma discussão sobre o papel das mulheres indígenas e sua atuação dentro dessa secretaria de política para as mulheres indígenas da América Latina de fato constituída com um conselho consultivo e deliberativo.

Pessoas e organizações que destacam-se na defesa e empoderamento dos povos indígenas.

Telma — APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) com cinco regiões e sua respectiva representação, que são a base. E COIAB, UMIAB, APOINME, ATYGUASSU, Conselho Terena, Arpinsudeste, Arpinsul, Comissão Yrupa, COICA (nove países da América Latina). Entre as lideranças, destaco Sonia Bone Guajajara, Nara Bare, João Neves, Sineia Wapixana, Maximiliano Tucano, Joenia Wapixana, Enok Taurepang, Luis Eloy Terena, Alberto Terena, Paulo Tupiniquim, Dinamarca Tuxa, Kretãn Kainkang, Marciano Guarani Nhandewa, Darã, Paulo Karay, Maria Assunta, Yannuzy Tapados, Patrícia Juruna, Toya Machineri, Alana Machineri, Arildo Gapame Surui, Marivelton Bare, Davi Kopenawa, Jacir José de Sousa, Nelino Galle, Valdi Tobias, Augustinho Ribeiro. Instituto Socioambiental: Adriana Ramos, Márcio Santilli, Ana Paula Souto Maior. IEB: Maria José, Cloude Correia, Andréia Bavaresco, Henyo Barreto Filho. RCA: Patricia Zuppi, Luis Donizete Benzi Grupioni. Conselho Indigenista Missionário: Cleber Buzatto.

Algumas ideias para um Brasil mais includente e socialmente justo.

Telma — Outorga de direito de fato aos povos indígenas para que seu acesso não seja negado perante a justiça, de maneira ampla e irrestrita. Participação no parlamento para discutir as questões dos povos indígenas do Brasil. Participar dos pleitos e de toda ordem que a sociedade civilizada tem em seu bojo, com direitos iguais.

Marcha das Mulheres Indígenas, 2016
Um momento que ficou na memória.

Telma — Na minha posse em 2010, quando assumi a secretaria geral do Movimento de Mulheres Indígenas do CIR, onde estavam presentes 2.000 indígenas de várias etnias, inclusive indígenas da Venezuela e Guiana Inglesa, cantaram dois cantos, em Macuxi, na sua própria língua materna, Tawaake Tawaake Tatarumenkai, parixara iipi yeramato’pe, esse canto quer dizer que “vamos receber todos os parixaras que estão chegando, todos pintados”. O outro ele diz que tem um pássaro e eu entendo que esse pássaro ele é o Grande Espírito, ele vem ser a própria vassoura pra varrer o nosso quintal, nossa casa, que é nosso corpo, nossa alma, e o canto diz assim “Upororoi Mikuyumaipe. Upororoi mikuymaipe tawaru tawaru,upororoi mikuymaipe tawaru tawaru.”

Como as pessoas podem contatá-la e apoiar sua luta?

Telma — Através do e-mail ts.com2016@outlook.com.

Deixe uma mensagem final aos nossos leitores.

Telma — Não caminho só, pois existe você, para caminharmos juntos, lado a lado em defesa dos nossos direitos. Direitos esses que já foram garantidos perante uma Constituição, e que hoje não pode haver nenhum retrocesso. Diante desse Direito, nossa Mãe Terra e vida, lutaremos juntos. Nenhum direito a menos, o que está em jogo hoje, não é só a minha vida e a sua vida, é a vida da Nossa Mãe Terra, nosso planeta Terra.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

'NUNCA TRAIA O QUE VOCÊ ESCREVEU' - Entreolhos com Gerson Monteiro

Gerson Monteiro é um jovem escritor do bairro vale das Pedrinhas, em Guapimirim, que vem alcançando notoriedade com sua forma singular de escrever. Autor de cinco livros - três de poemas e dois romances -, Gerson, que tem pouco mais de vinte anos prepara mais um romance, que formará uma trilogia com os anteriores DOIS MUNDOS e DOIS MUNDOS DOIS, nos quais ele narra com muita sensibilidade e sem dramalhões, um drama que ainda atravessa, mas está prestes a vencer, e não detalhou neste entreolhos. Gerson Monteiro, filho da artista plástica Sônia, já  entreolhada por nós, é o nosso convidado.

E – Gerson; com pouco mais de vinte anos de idade, você já é um autor destacado em Guapimirim, sua cidade;  na cidade vizinha, Magé, e vem gradativamente conquistando espaço em toda a baixada fluminense. Fale para nós, sobre como se deu esse processo em tão pouco tempo, e quando foi seu início.

G – Eu comecei a escrever para desabafar, e notei que as pessoas começaram a curtir aquilo. Logo comecei a escrever por prazer. Devo meu reconhecimento a minha mãe Sônia Monteiro que me colocou em vários eventos, e amigos como o escritor Demétrio Sena que sempre fez despontar o meu nome.

E – Quais foram os livros lançados por você até o momento, e quais são as suas temáticas? 

G – Cuca Legal, O Segredo Da Vida, A Nova Poesia, Dois Mundos e Dois Mundos Dois. Os três primeiros são de poesias, ou de alguma forma poéticos, os dois últimos são romances.

E – Você tem a sensação de que já é consagrado em seu meio? Por que sim ou por que não, e o que você espera de seu futuro como escritor?

G - Tenho a sensação de que não sou consagrado, espero ser no futuro.

E – Fale-nos do escritor Gerson Monteiro entre família. Como você se vê nos olhos de seus familiares, em especial seus pais?


G - Meus familiares me veem como uma pessoa legal, meus pais simplesmente me amam. Acho que não existe amor maior que o deles por mim. Se existe, ainda não encontrei.

E – Quais são os seus temas prediletos, ao escrever? Sobre o que você mais gosta de escrever, e por que razão?

G - Eu gosto de escrever poesias, porque acho que se tem total liberdade na hora de escrever uma poesia. Você pode escrever o que quiser e isso é algo especial

E – Sabe-se que você teve que dar uma pausa, por questões de saúde, não exatamente no ato de escrever, mas nas atividades públicas relacionadas à literatura. Quer falar a respeito? Só se quiser.

G – prefiro não comentar, porque não é como se eu decidisse dar uma pause nas minhas atividades, eu fui obrigado a parar e isso me deixou triste.

E – Ao que sabemos você tem três livros de poemas e dois romances publicados. Parece-nos que os romances falam de você em terceira pessoa. É isso mesmo? O que você relata nesses livros?

G – Sim, eu tinha a ideia de um romance e minha experiência de vida. Foi com isso que comecei a escrever

E – Também sabemos que o seu próximo livro será outro romance. De que trata esse romance? Uma continuação dos anteriores, DOIS MUNDOS e DOIS MUNDOS DOIS? Fale sobre ele, se puder.

G – Na verdade meu próximo livro será sobre minha doença, eu decidi me abrir. Mas sou do tipo que só consegue se abrir para um papel em branco.

E – Que tempo mais você estima, para voltar à carga em suas atividades literárias, no que tange apresentações, lançamentos e outros desempenhos?

G – Meu desejo é voltar o quanto antes.

O autor com a mãe, Sônia Monteiro
E – Considerando o contexto de sucesso no meio musical, qual é a sua definição de sucesso para um escritor? O que é ser bem sucedido como escritor?

G – Acho que é alcançar o reconhecimento das pessoas. Saber que as pessoas ligam você a um texto seu. E ter vários fãs, é claro! (riso)

E – Qual é o processo de edição e distribuição de seus livros? Como você faz para lançá-los e vendê-los?

G – Atualmente eu fecho um contrato com a Editora Costelas Felinas, que fabrica os meus livros e os envia para mim. Então eu os vendo em eventos, exposições e a qualquer momento a quem possa interessar.

E – Tem algum apoio de alguma empresa ou do poder público? Quem o apoia, de fato, e de que forma?

G – Infelizmente não tenho apoio algum desses meios.

E – A partir de suas observações como escritor: a baixada fluminense lê? E as cidades de Magé e Guapimirim, onde sua atuação é mais forte? São cidades cujos povos leem? Fale a respeito.

G – Sim, conheço muitas pessoas que gostam de ler; o problema é que essas pessoas não estão conectadas umas com as outras ou com o grande público, para contagiarem a todos com esse gosto por leitura.

E – Você é membro de uma academia literária. Como é ser acadêmico? Quer falar a respeito da academia e de como você se relaciona com seus pares?

G – É uma grande honra para mim, ser um membro da ACLAM (Academia de Letras e Artes de Magé), mas atualmente não estou um membro afetivo, por isso não posso
comentar.

E – Quais são os seus projetos, em longo prazo, para sua carreira como escritor?

G – Escrever um livro sobre um super herói, sempre foi meu sonho.

E – Se puder, deixe uma mensagem para jovens como você, que sonham ser escritores.

G – Nunca traia aquilo que escreveu!

E – Baseado em seu drama pessoal e a superação que você vem alcançando na luta contra ele, deixe também uma mensagem aos leitores.

G – Encare o problema, é melhor lutar do que sentar e esperar o desfecho.

E – Quer falar sobre algo que não perguntamos? Esteja à vontade.

G – Obrigado pela oportunidade; é uma honra para mim, ser entreolhado.

E – Nós é que agradecemos; o seu entreolhos nos enriquece.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

'CRESCEMOS SOB A TUTELA DE UM CONTEÚDO ENCAIXOTADO' - Entreolhos com Ludo Lopes

Ele é professor de filosofia no ensino médio, pela rede pública estadual. Vive, como todos os profissionais públicos do Estado do Rio de janeiro, as agonias e previsões desanimadoras que assolam não só o estado, mas todo o país, por meio das grandes mídias. Vive também, as expectativas e dúvidas sobre as novas possíveis políticas de ensino, pretendidas pelo governo federal. Luís Cláudio, o Ludo Lopes, é o nosso entreolhado.

E - Entre a infância e a adolescência, muitas pessoas acreditam que o filósofo é um escritor de frases. Com essa crença, são muitas as crianças e/ou adolescentes que passam a escrever pequenos textos, ou pensamentos, e se auto-intitulam filósofos. Até que ponto essa fantasia tem alguma conexão com a realidade, se é que tem?

LL - Na verdade não tem tanto a ver com a realidade. Mas podemos fazer uma conexão com o fato de serem utilizadas pequenas afirmações soltas de pensamentos complexos dos filósofos mais conhecidos. O problema é que isso acaba criando uma visão equivocada do filósofo no imaginário social: acredita-se que o filósofo, e a própria filosofia, sejam dados a meras opiniões acerca dos mais variados fenômenos naturais ou sociais. Na sala de aula, por exemplo, nós, professores de Filosofia, nos confrontamos com essa questão. Os alunos sempre acham que em filosofia qualquer opinião basta. E isso está longe de ser Filosofia.

E - O que é, e do que trata a filosofia, em suas palavras, dispensando o sentido ou contexto exato ou formal da disciplina?

LL - A própria palavra já nos dá o entendimento dessa área tão antiga do conhecimento: filosofia significa a busca da sabedoria. Então, nada mais é do que uma busca. Um desejo do homem em buscar muito mais do que informações e conhecimento. Busca-se a sabedoria, ou seja, a capacidade de olhar de maneira sempre nova algum aspecto natural ou social para, assim, partindo da racionalidade chegar a uma explicação provável e coerente. A sabedoria transcende a informação e o conhecimento. Mas não há um caminho demarcado para chegar a ela, cada um precisa buscar sua maneira de buscá-la. Portanto, muito mais do que ensinar Filosofia, o professor deve "ensinar a filosofar" como bem disse Kant.

E - Você é um professor de filosofia, e trabalha com alunos do ensino médio. Em sua opinião, onde está a importância do estudo da disciplina, nessa fase escolar?

LL - O ensino e a própria escola são um meio de manipulação das massas. Crescemos em uma caixinha murada, sob a tutela de um conteúdo encaixotado e controlados por um horário em grade, com livros predeterminados pelos governos... enfim, desde criança somos induzidos a aceitar a realidade tal como nos é apresentada. E a Filosofia mexe justamente com as estruturas predeterminadas. Ela nos leva a olhar a tudo com outros olhos, nos tira da comodidade das verdades absolutas e nos obriga a buscar uma maneira particular para reconstruir a ideia que fazemos da realidade.

E - É muito importante para você, avaliar com vistas à aprovação ou reprovação, o desempenho dos alunos em sua cadeira, ou você fica feliz, realizado, e considera, ao notar que um aluno, embora não tenha ido bem num teste ou prova, entendeu seus conteúdos? Por que sim ou por que não?

LL - Fico feliz quando percebo que um aluno acompanhou a reflexão e a argumentação de algum filósofo. Acho inclusive que esse aluno chegou a um nível bem maior do que aquele que apenas sabe o que foi dito. Quando o aluno ultrapassa as informações e começa a dialogar com a reflexão apresentada, ele começa a compreender e exercer o que chamamos filosofia.

E - Quem se forma em filosofia é, necessariamente, um filósofo?


LL - Não. Como já disse, não é a informação que faz o filósofo, mas uma busca. Isso pode acontecer dentro ou fora da Academia. A maioria dos estudantes de Filosofia estaciona na história da Filosofia. Isso acontece justamente porque o próprio ambiente acadêmico tem se tornado ao longo do tempo um campo de repetição de pensamentos. O sistema que embrutece o Ensino Básico é o mesmo que opera no Ensino Superior.

E - Se não fosse para ser professor, nem especificamente filósofo, qual seria o objetivo de quem escolhe cursar filosofia, no ensino superior?

LL - Quando se escolhe Filosofia na juventude, estamos levando em consideração nossas utopias acerca da sociedade. Realmente queremos compreender o Mundo. Estamos escolhendo buscar um caminho para essa compreensão. É bem verdade que, com um mundo capitalista a nossa volta, acabamos nos rendendo a buscar sustento. Mas o objetivo inicial tem a ver com os ideais.

E - Se um de seus alunos se apaixonar pela filosofia, disser que a escolheu para o curso superior, mas não deseja lecionar, no futuro, o que você terá para dizer, caso ele peça sua opinião?

LL - Diria que no Brasil é complicado. Primeiro, que seja na sala de aula ou fora dela, quando o bacharel em Filosofia apresenta suas ideias, ele estará sendo um mestre, trazendo um novo olhar sobre uma realidade. Em última análise, quem se forma em Filosofia, será sempre um professor. Muitos ensinaram a Filosofia, alguns ensinarão a filosofar. Mas todos nós ensinaremos de alguma forma.

E - A educação já perdeu, ao longo dos anos, disciplinas como OSPB, Educação Moral e Cívica entre outras. Para você, o que significaria ou qual seria o impacto de uma possível exclusão dessa disciplina, no currículo escolar?

LL - Ao tornar a Filosofia disciplina obrigatória no Ensino Médio, dá-se ao estudante a possibilidade de olhar o mundo de maneira diferente e, sobretudo, criticá-lo. Percebemos isso quando analisamos os anos seguintes ao retorno da Filosofia no currículo escolar: a participação dos jovens e adolescentes nas manifestações recentes (sejam elas de direita ou esquerda) tem aumentado bastante. Retirar a Filosofia das escolas é frear o pensamento crítico da sociedade.

E - Qual é o papel da filosofia na sociedade, como um todo?


LL - Exatamente esse, cultivar um olhar capaz de criticar verdades absolutas para desconstruir a sociedade e buscar novos caminhos, novas construções.

E - Quais são os filósofos que mais o encantam e sobre os que você mais gosta de falar, na sala de aula?

LL - Dos antigos, gosto muito do Heráclito, que assinala a mudança, a transformação, o "DEVIR", como base para a realidade. Mas gosto também de Jean-Paul Sartre, ele defende que a existência precede a essência. Diz que o homem é fruto de suas próprias escolhas e que este está condenado a ser livre. É sobre isso que gosto de falar: escolhas, liberdade e responsabilidade.

E - E os alunos? Como você percebe que os alunos recebem a disciplina? Em sua opinião eles gostam, aceitam porque não há outro jeito, ou até passam a gostar?

LL - Acredito que, assim como qualquer outra disciplina escolar, está complicado conquistar o interesse do aluno. Porém, mesmo em dias nos quais aprender passou a ser obrigação ao invés de prazeroso, a forma com a qual o professor lida com a disciplina e com os alunos, além do vocabulário utilizado para apresentar suas reflexões, sejam determinantes em como os estudantes vão lidar com a Filosofia. Se o professor consegue estabelecer um elo da Filosofia com a realidade de seus alunos, eles passarão a gostar, pois ela é natural do homem.

E - Você é um professor que ensina o necessário e obrigatório, ou gosta de... digamos, filosofar com os alunos, independente das aulas?

LL - Costumo passar o obrigatório, pois é isso que é cobrado no Enem ou qualquer prova que se cobre Filosofia, mas gosto de debater e trazer temas atuais para a sala. Assim os alunos percebem porque a filosofia é muito mais prática do que se pensa.

E - Quais são as outras disciplinas que você acha que interagem perfeitamente com a filosofia? Ou não há?

LL - Costuma-se dizer que a Filosofia é a mãe de todas as disciplinas, visto que no fim das contas todas surgiram do interesse em buscar a sabedoria em alguma área. Assim, a Filosofia se liga a qualquer área do conhecimento. Por outro lado, gosto da ideia que se tem de que Filosofia, História e Artes sejam disciplinas irmãs. As três trabalham com a desconstrução do real, cada uma do seu jeito, mas sempre estarão nos tirando da zona de conforto.

E - Quando e onde você se formou em filosofia, e quais são suas possíveis formações adicionais, formais ou não?

LL - Me formei na UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Lá também iniciei minha vida artística. Também sou ator de teatro e palhaço. Amo a arte da risaria e adoro o mofo das coxias dos teatros!

E - Você atua no ensino público estadual do Rio de Janeiro. Com os problemas que a
educação pública enfrenta, como todos os setores país afora, qual é o maior desafio de um professor, seja ele de qualquer disciplina?

LL - O maior desafio de qualquer professor hoje é despertar o interesse dos alunos. O mundo está muito rápido e tudo está sendo transformado em descartável, até o ensino.

E - De zero a dez, qual é a sua nota para o poder público estadual, no que tange a importância que o mesmo demonstra dar aos estudantes e aos profissionais da educação? Se quiser, além de responder, comente sua resposta.

LL - O ensino público só foi levado minimamente a sério pelo Estado quando era direcionado a uma pequena parte da sociedade. A partir do momento que o pobre começa a ter acesso a ele, tudo muda: escola e professor foram abandonados pelos Governos. Hoje, chegamos ao cúmulo de desejar o retorno de práticas escusas para acabar com a violência. A educação e o ensino nem são cogitados como peça fundamental para mudança de paradigmas. Acredita-se mais na bala que sai do cano de uma arma do que nas palavras de um professor. Isso é a prova de que o Estado foi incapaz de pôr em prática o ideal da educação como único caminho viável de transformação da sociedade.

E - Antes de fecharmos este bate papo, você gostaria de falar algo sobre as novas políticas de ensino pretendidas pelo governo federal? O que elas significam para um professor de filosofia?

LL - Não concordo com as mudanças da maneira que estão pretendendo. Tornar o Ensino mais técnico não é avanço. Já passamos por isso há décadas atrás e não foi suficiente para melhorar nossa sociedade. Enquanto os Governos olharem o ensino apenas pelo olhar estatístico e/ou econômico, não chegaremos a lugar algum. É preciso humanizar a escola! É preciso que o ensino seja voltado para a emancipação pessoal de cada aluno. Ensinar uma profissão só emancipa financeiramente e a escola precisa cultivar uma emancipação total do ser humano.

E - E o que significam na prática, para os alunos, em um contexto global?

LL - Na prática, estaríamos voltando a um modelo no qual a escola fabrica novos trabalhadores para que o sistema continue funcionando. Novamente negamos ao estudante mais pobre a possibilidade de conduzir a própria história com as mesmas oportunidades que os filhos das classes média e alta.

E - Deixamos de perguntar algo que você ficaria feliz em responder? Fique à vontade.

LL - Apenas agradeço por me darem espaço e poder apresentar minha visão sobre o mundo e a educação. Espero contribuir para que esse debate não se apague.

E - Muito obrigados. Entreolhá-lo foi um grande prazer.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

"O QUE É DIVINO PARA VOCÊ?" - Entreolhos com Bianca Santana

Artista plástica e artesã, Bianca Santana é um dos nomes que se destacam na baixada fluminense, na zona oeste do Rio do Janeiro e na região serrana. Nas cidades de Magé e Guapimirim, região onde mora, sua atuação é ainda mais intensa: participa de quase todos os movimentos culturais e tem uma relação de muita interatividade com artistas e escritores do lugar. Bianca Santana é a nossa entreolhada.

E – Olá, Bianca. Nossa pergunta inicial para você é clássica: quando foi que você sentiu que era uma artista? O que a fez despertar para o seu talento?

B – Na época em que comecei a fazer “os divinos”. E logo depois, quando fiz uma viagem a Pedra de Guaratiba, onde me repensei e organizei minhas ideias. Ao entrar em contato com o coletivo “mulheres de pedra”, percebi que era aquilo que me movia: a liberdade de expressão daquelas pessoas... Eu quis ser mais livre também. Durante o processo da criação dos divinos, fui me recriando também... Soltando algumas amarras, algumas percepções antigas sobre mim e o mundo, procurando o sagrado dentro de mim, mas não num sentido estritamente religioso, e sim, no sentido daquilo que é sagrado em mim como “ser humano”.    

E – Você é mais artesã ou artista plástica? Existe algum conflito interno entre ambas as modalidades praticadas por você?

B – Sou as duas coisas... Nas mesmas proporções. Penso que nunca houve este conflito. Eu acredito que, tanto o artista quanto o artesão estão sempre envolvidos na transformação: seja de matérias-primas ou percepções. Então, consequentemente, alteramos a realidade, o comportamento e a vida das pessoas.

E – Diga-nos onde você mora. Em que cidade. E qual é a sua relação, como artista e artesã, com a cidade onde mora?

B – Antes da emancipação, morava em Magé, mas hoje em dia, moro em Guapimirim. Assim, na cidade onde moro, minha relação é quase nenhuma. Já em Magé, participo, dentro do possível, de Fóruns de Cultura, de exposições coletivas. Mas... Gostaria muito de estreitar esta relação com Guapimirim. 

E – Você vive de sua arte? Até que ponto ela é especificamente um prazer, e onde se torna uma fonte de renda?

B – Atualmente, sim. Ela é um prazer quando tenho liberdade de criar espontaneamente, sem regras ou objetivos finais. Ela passa a ser uma fonte de renda quando tenho que me inserir em algo preestabelecido por alguém ou por algum projeto.

E – Quais são as maiores dificuldades de quem trabalha com arte em sua região e nas demais aonde você leva o seu trabalho?

B – Na minha região, é o reconhecimento. Parece que não há valorização dos artistas e artesãos locais. Nas demais localidades me parece que a aceitação é mais fluída e sem preconceitos, pois  não conhecem o meu trabalho, ou nem sabem que eu sou da baixada fluminense. Por exemplo, se você diz que é artesão lá de Minas, as pessoas te acolhem, parece que “você é uma nuvem fofa lá de Minas”, mas, quando você diz que é de Magé, da baixada, logo associam à criminalidade, à política de corrupção, desqualificando previamente o seu trabalho. Mas nem por isso, deixo de dizer de onde sou.    

E – Fale-nos de apoio: do poder público, amigos e família. De onde vem maior apoio, de que natureza, e de onde não surge nenhum apoio, se é que isso acontece?

B – O apoio do puder público é quase nulo. A família, “cai” um pouco naquela coisa de “como olha muito, acaba não vendo”! Salvo a minha prima Carine e meus dois filhos – Ana Clara e Lucas! Já os amigos, de onde vem o maior apoio, são bem acolhedores e críticos, sugerindo, pedindo explicações... E de forma efetiva, tive e tenho o apoio de empresárias, do ramo de cafeterias, onde fiz minhas primeiras exposições individuais. 

E – O seu meio é muito competitivo? Em que momentos você percebe que a competição é sadia, ética, e em que momentos ela se torna predatória, perniciosa e antiética? Ou não existe isso?

B – Sim... No momento em que as pessoas precisam afirmar seu trabalho. É inerente ao artista/ artesão, precisar estar em destaque.
Ela se torna antiética quando você não compartilha possibilidades de trabalhos em coletivos, quando são tecidos comentários pejorativos em relação à arte do outro. 

E – Por favor; faça para nós um passeio por suas exposições individuais realizadas até agora.

B - Mostra de Arte interativa: “O que é Divino para você?” No Cheirim de Café, em Teresópolis - Maio de 2015.
Mostra de Arte Interativa: “O que é Divino para você?” Cassino Municipal de Paracambi - Setembro de 2016.
Mostra de Arte Interativa: “O que é Divino para você?” Acontecerá em 17 de junho de 2017 - Bendito Café Andorinhas - Magé
Mostra de Arte interativa: “O que é Divino para você?” Agendada para Julho de 2017- Datas a confirmar na Comedoria Café - Teresópolis

E – Relate suas participações, pelo menos as que você recorde, em eventos culturais coletivos.

B – Fóruns Culturais da Baixada Fluminense, 2016-2107 (Paracambi, Magé, Guapimirim)
Folclovera – Calçadão de Magé, Setembro – 2016
Arte em Movimento - Magé, Maio, 2017
ExpoArte - Magé, Novembro 2015
Workshop de Performance e Intervenção Urbana “Veste Mundo”, realizada pela Ação Educativa do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea – Abril, 2015
Fórum de Políticas de Cultura de Guapimirim - Junho, 2017. 

E – A partir de suas vivências como fazedora de cultura, você concorda em parte, completamente ou não concorda com a máxima de que o “profeta” não em valor na própria terra? Por que razão?
B - Sim, concordo completamente e foi algo que citei na resposta à pergunta sobre as dificuldades enfrentadas pelos que trabalham com arte na minha região. Às vezes tenho a sensação de que as pessoas não se acham merecedoras de algo bom, como se não fosse possível ter algo de valor tão próximo a elas.  

E – Você está trabalhando na elaboração de um novo projeto pessoal. Uma exposição de seus trabalhos. Onde será essa exposição? Quando? Quais são as suas expectativas para ela?

B – Na realidade, não é um novo projeto. Trata-se da continuidade da exposição interativa “O que é Divino pra Você?”, na qual eu desloco o sentido estritamente religioso do Divino para um lugar de reflexão individual, onde cada possa repensar o que é divino para si. Esta é a minha expectativa... Intervir e despertar esta reflexão.
A exposição vai acontecer em uma cafeteria, que fica em Santo Aleixo, no Bendito Café, com abertura dia 17 de Junho, deste ano, às 18h.  

E – Pedimos agora, que você fale do outro. Quem são os alvos de sua admiração entre os que fazem cultura em sua cidade? Se não achar polêmico, fale dos que mais admira, e por que razão.

B – Admiro o trabalho do ator, diretor e escritor de teatro, Patric Rosa por seu talento, garra, perseverança e disposição. É exemplo, ao manter uma ONG com um mínimo de apoio.  Ele, com seu trabalho com jovens atores (diga-se de passagem – maravilhosos) oferece oportunidade de encontros com Arte e reflexões sobre a vida.    

E – Pedimos agora, que você faça um elogio e dê uma bronca, em separado, em alguma instituição pública ou privada, ou representante, que tenha como atribuição – ou pelo menos uma de suas atribuições – o apoio à cultura.

B – De maneira geral, as instituições públicas deixam a desejar, na medida em que escolhem “a dedo” quem será contemplado com o apoio a projetos, não parecendo haver critérios claros nas escolhas.

 E – Quais foram as pessoas que mais a apoiaram até hoje, no que tange o seu fazer cultural?

B – Em termos concretos, obtive apoio das empresárias, proprietárias dos cafés que abrigaram as minhas exposições. De forma subjetiva, os Fóruns sempre foram espaços de reflexões e trocas, bem como pontes para conexões com outras pessoas ou coletivos de Arte.  

E – Não precisa dizer nomes, mas, houve ou há quem tenha tentado ou tente, de alguma forma, desqualificar seu trabalho? Qual foi ou é o resultado?

B – Felizmente não.

E – A Bianca pessoa é muito diferente da Bianca artista e artesã, ou você acha que ambas são bem parecidas? Talvez uma só?

B – Acho que ambas são bem parecidas... De fato, uma só. Sinto-me única nisso... Aonde vou estou sempre conectada comigo, com o meu divino. Por exemplo... Nestes dias fui almoçar e vi um piano fechado... Meio abandonado... Minha vontade foi a de fazer uma intervenção e colocar uma placa, escrito: “Por Favor, Toque-me”... Como um apelo. Porque é muito triste um piano que não pode “ser um piano”.

E – Como você classifica a participação real do poder público em todas as instâncias, na vida cultural das cidades, os estados e o Brasil como um todo? E na sua cidade? Como é?

B – Penso que o poder público não se interessa pela Arte... Pelos pequenos coletivos. A Arte não interessa muito, pois quebra padrões, gera reflexões, causa incômodo, cria pensadores, formadores de opiniões, faz você sair do senso comum e isso não interessa ao poder público. Quanto mais leigo você for, mais manipulado você é. Na minha cidade, não é diferente.

E – Deixe aqui uma mensagem para as pessoas que a apoiam e demonstram admiração pelo seu trabalho.

Para o artista, um elogio funciona como fonte de inspiração. Mas, mais do que ser admirado, nós temos a necessidade de sermos entendidos. É saber que causamos no outro algum tipo de intervenção. Mas eu gostaria de dizer a estas pessoas que me admiram que o os seus olhares, mesmo que calados, ainda dizem muito.  

E – Quer deixar uma pergunta no ar, feita a quem você queira sobre a importância do apoio à cultura?

B – Com tantas mudanças, não saberia nem mesmo a quem perguntar.

E – Se deixamos de perguntar algo sobre o que você gostaria de responder, responda mesmo assim. O espaço é seu.

B – Gostaria de falar sobre a Arte e a Saúde. Tendo eu seis anos de trabalho em Saúde Mental, pude ver o efeito da Arte sobre as pessoas. A partir dos Fóruns, por meio da fala de uma psicóloga, percebi que os grandes geradores de saúde são as produções artísticas, os coletivos, os pequenos teatros – como o de Patric Rosa, como o trabalho de Sônia Monteiro, que leva a Arte às pessoas que são “querentes” de tudo... Como o trabalho de Demétrio Sena, que com seu olhar raro, extrai beleza de locais áridos e esquecidos. Pude perceber que não são os hospitais os grandes geradores de saúde, e sim, as pequenas iniciativas, que na maioria das vezes são invisíveis e silenciadas pelo poder publico.


E – Muito obrigados; foi um prazer imenso entreolhá-la.